sábado, 6 de março de 2010

Correndo...

Abomino hospital, remédio e etecetera e tal prá não magoar ninguém...

Mas o Dr., ao analisar os resultados do exame de laboratório, foi enfático:

-Temos um problema aqui, você está correndo riscos.

Minhas pupilas se dilataram e os batimentos cardíacos que já passavam de 100 bpm só por estar naquele ambiente indesejável (hospital) de repente foram a 120. O corpo tremia todo, sou medroso por natureza, esperava a bomba!!!

-Bem, disse o médico, tirando os óculos para limpá-los, enquanto percebia minha agonia:

sua taxa de triglicérides está muito alta e temos que fazer alguma coisa para tentar baixá-la.

Ele queria dizer, na verdade, era que eu teria que fazer algumas coisas...

Fui informado que precisaria dormir melhor, ingerir menos carboidratos e, o mais difícil, fazer exercícios físicos regularmente.

Um sedentário assumido, com hábitos alimentares pouco ortodoxos e trabalhando como comunicador de rádio até meia noite, teria mesmo que repensar a vida...

Dia seguinte, ainda refletindo às ordens médicas, fui a uma loja de material esportivo e comprei: um tênis, shorts para caminhadas, camisetas e outras coisinhas que deveriam fazer parte da nova vida.
O primeiro dia de caminhada foi horrível, um cansaço extremo... mas o Dr. mandou, fazer o quê?
As manhãs começaram a ficar desafiadoras. Em alguns momentos queria desistir. Aquilo era sofrimento demais...
Um dia, enquanto subia a Ladeira da Barra caminhado, 1 km de pura teimosia, me ocorreu um pensamento, no mínimo pretensioso, por quê não arriscar algumas passadas correndo?
Assim foi feito, cada dia um pouco mais... até que um dia me enchi de coragem e cheguei em casa convidando a família para iniciarmos as férias em São Paulo, mais precisamente na Avenida Paulista, dia 31 de Dezembro, às cinco da tarde!
Para os desavisados, eu os convidava para assistirem a minha estréia em corridas oficiais. Não poderia ser diferente tinha que ser na São Silvestre... quanta ousadia, falta de desconfiometro , sei lá... cara de pau mesmo!
Dito e feito. Tal dia, tal hora, olha eu lá no meio da multidão...
Envergonhado, sem nenhum perfil de atleta, uns 15 kg acima do peso, nenhuma experiência em corridas, mas com um sonho no coração... chegar vivo e levar a prometida medalha pra casa.
Preciso ressaltar que no meu programa de rádio, líder de audiência na cidade no horário, prometi aos ouvintes que na volta das férias contaria pra eles da façanha. Não faltou incentivo:
- estaremos assistindo na TV, - vamos torcer, - leve uma placa para podermos identificá-lo, etc
Aos filhos prometi a tal medalha, que insanidade!!!
A corrida começou no horário previsto, pontualmente às cinco.
Só consegui dar as primeiras passadas uns 10 minutos depois, tamanha multidão em volta.
O começo foi estressante, coração batendo a mil, parecia querer sair pela boca. Ao final do primeiro km já respirava com dificuldade. A vontade de desistir ficou na curva que sai da Paulista pra consolação...
Um ladeirão sem fim era tudo que eu queria e foi o que vi. Os atletas de verdade, já estavam muito longe dali. Impossível acompanhá-los com aquele vigor todo. Os Quenianos, parece que não comem, são esqueléticos, nenhuma gordurinha, cada pernão... sumiram.
Enquanto corria, pensava, será que dá? terminou a ladeira, acabou a moleza.
O que tem pela frente é só subida, meu Deus!
Passo do km 5 e penso em desistir novamente. Lembro da promessa aos filhos, aos ouvintes...
Mas dói joelho, tornozelo, ombro, costas... isso é sofrimento demais!
Continuo em frente, tomo um copinho de água quente, que horrível. A próxima placa indica km 8, agora as cãibras aparecem de vez.
Olho pra frente, todos parecem alheios à minha luta. É preciso continuar, como? eu não vou conseguir penso novamente.
Uma cena me chama a atenção, um cara correndo ali pertinho de mim só com uma perna... a outra é uma prótese... -que maluco, penso! Para depois entender: é um herói, um sonhador, um valente!
Com os pensamentos confusos pelo calor e o cansaço extremos, chego finalmente ao km 12 e meio... enquanto ouço gritos estranhos, do tipo: -lá vem ela, lá vem ela...
Quem será ela? alguma personalidade, uma artista, alguma modelo famosa?
Ilusão!!! Ela, em questão, é a inimiga número um do corredor da são Silvestre, a subida de 2 km da Brigadeiro Luís Antônio.
Fim de prova pra mim, pensei! Eu não vou aguentar mesmo! Olho pra frente e uma multidão parece flutuar à minha frente.
E a promessa?! Agora só falta a subida e mais um pouquinho! Não posso parar. Não sinto que estou levantando as pernas mais, elas estão anestesiadas pelas dores.
Acabou a ladeira, estou entrando novamente na Paulista, vai acabar, vejo as luzes indicando a chegada... a emoção vem com tudo... os últimos metros são de choro compulsivo... a multidão aplaude sem parar os últimos heróis que chegam... enfim, o funil. A medalha no peito!!!
Posso gritar bem alto: - é campeão!
Afinal, o campeão não é apenas o primeiro a chegar, é também o que acredita no seu sonho. O que valoriza cada passo da conquista. O que luta com todas as forças. O que não desiste nunca.
Isto me lembra uma música que diz assim: "Não é dos fortes a vitória, nem dos que correm melhor, mas dos sinceros e justos, dos que cultivam o amor..."

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