sábado, 6 de março de 2010

O que é a vida?

Não sei se você, assim como eu, já pensou na transitoriedade da vida...
Acordei numa madrugada de agosto de 1991, em poucos minutos estava dentro do carro com dois irmãos, uma cunhada e uma sobrinha. Viajaríamos 1500 kms até o destino, São Paulo, capital. Após percorrer 35 kms o carro deixou de funcionar, parou tudo. Incompreensível para um veículo que acabara de ser revisado...
O que fazer? Pedir socorro, guinchar, voltar prá casa. Em menos de 5 minutos parou na BR 116, Rio-Bahia, um caminhoneiro solícito que prontificou-se a nos rebocar.
O retorno transcorria tranquilo enquanto degustávamos salgadinhos, sucos, docinhos e outras delícias e fazíamos planos para aproveitar aquela inesperada folga na manhã de domingo que começava a surgir no horizonte celeste das caatingas.
Num lance de milésimos de segundos vejo a luz de freio do caminhão que nos arrastava por cordas crescer diante dos meus olhos ainda levemente sonolentos.
O reflexo prontamente me levou aos pedais de freios, -que freios? repentinamente eles já não funcionam... duas, três tentativas e nada. O carro está entrando no fundo do caminhão, a carroceria tem aquele modelo alto, vamos ser esmagados, meu Deus!
Ouço gritos, traciono para a esquerda, a pista contrária parece livre. O caminhão está sendo ultrapassado por mim que sou rebocado por ele...
Era mesmo inevitável, as cordas se enroscam no pneu traseiro para logo a seguir me puxar para um número incalculável de tombamentos, na pista.
Enquanto sacudimos indefesos dentro do carro ouço mais gritos, muitos deles... e penso:
"Meu Deus, ajuda-nos!".
Sou o mais velho dos irmãos, o que está ao volante, penso em tanta gente rapidamente, em coisas ainda por fazer, tantos sonhos, família, amigos, trabalho. Será que quando o asfalto passar rente à minha cabeça mais uma vez... não quero nem pensar agora...
A cena toda não deve ter durado mais de dois minutos. Agora me vejo todo machucado, arranhado, tentando me levantar do asfalto, dói tudo.
A sensação de ter sobrevivido é agradável e ao mesmo tempo desesperadora. Onde está o carro, onde estão os outros que viajavam comigo?
Tentando me apoiar em pé logo os vejo: ensanguentados, cortados, feridos, quebrados...
Mais uma hora e estamos sendo conduzidos pela polícia rodoviária federal ao hospital da cidade.
Reflexões, decisões... aquele domingo foi no pronto-socorro do hospital Samur...
Não viajamos até São Paulo, não jogamos futebol com os amigos, não deu prá ir ao sítio no Iguá, mas estamos celebrando a vida...
O que é a vida?
Obrigado Deus, autor.

Um comentário:

  1. Paiziinho! O Senhor colocou em vc o dom da escrita... que o sr. possa continuar usando-o de forma extraordinária como costuma!
    Que Deus o abençoe infinitamente! Te amo, saudades

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